13.7.09

IX. Aforismo-asmático

O que me interessa não é o objeto
mas o subjeto.










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10.7.09

VIII. Siso exorcisado

A specter is haunting the cinema: the specter of narrative. If that apparition is an Angel, we must embrace it; and if it is a Devil, then we must cast it out. But we cannot know what it is until we have met it face to face. To that end, then, I offer the pious:

A PENTAGRAM
FOR CONJURING THE

NARRATIVE
I
LATELY, a friend has complained to me that his sleep is troubled by a recurrent nightmare, in which he lives through two entire lifetimes.
In the first, he is born a brilliant and beautiful heiress to an im-
mense fortune. Her loving and eccentric father arranges that his daughter's birth shall be filmed, together with her every conscious moment thereafter, in color and sound. Eventually he leaves in trust a capital sum, the income from which guarantees that the record shall continue, during all her waking hours, for the rest of her life. Her own inheritance is made contingent upon agreement to this invasion of privacy, to which she is, in any case, accustomed from earliest infancy.
As a woman, my friend lives a long, active and passionate life.
She travels the world, and even visits the moon, where, due to a mis- calculation, she gives birth to a normal female baby inside a lunar landing capsule. She marries, amid scores of erotic adventures, no fewer than three men: an Olympic decathlon medalist, a radio- astronomer, and, finally, the cameraman of the crew that follows her everywhere.
At twenty-eight, she is named a Nobel laureate for her pioneering
research on the optical cortex of the mammalian brain; on her forty- sixth birthday, she is awarded a special joint citation by the Con- gress of the United States and the Central Committee of the Peoples' Republic of China, in recognition of her difficult role in mediating a treaty regulating the mineral exploitation of Antarctica. In her sixty- seventh year, she declines, on the advice of her lawyers, a mysterious offer from the decrepit Panchen Lama, whom she once met, as a very young woman, at a dinner given in honor of the Papal Nuncio by the Governor of Tennessee. In short, she so crowds her days with ex- perience of every kind that she never once pauses to view the films of her own expanding past.
In extreme old age - having survived all her own children - she makes a will, leaving her fortune to the first child to be born, follow- ing the instant of her own death, in the same city ... on the single condition that such child shall spend its whole life watching the accumulated films of her own. Shortly, thereafter, she dies, quietly, in her sleep.
In his dream, my friend experiences her death; and then, after a brief intermission, he discovers, to his outraged astonishment, that he is about to be reincarnated as her heir. He emerges from the womb to confront the filmed image of her birth. He receives a thorough but quaintly obsolete education from the films of her school days. As a chubby, asthmatic little boy, he learns (without ever leaving his chair) to dance, sit a horse, and play the viola. During his adolescence, wealthy young men fumble through the confusion of her clothing to caress his own unimagin- able breasts.
By the time he reaches maturity, he is totally sedentary and reclu-
sive, monstrously obese (from subsisting on an exclusive diet of but- tered popcorn), decidedly homosexual by inclination (though mas- turbation is his only activity), hyperopic, pallid. He no longer speaks, except to shout "FOCUS!"
In middle age, his health begins to fail, and with it, imperceptibly,
the memory of his previous life, so that he grows increasingly depend- ent upon the films to know what to do next. Eventually, his entire inheritance goes to keep him barely alive: for decades he receives an incessant trickle of intravenous medication, as the projector behind him turns and turns.
Finally, he has watched the last reel of film. That same night, after
the show, he dies, quietly, in his sleep, unaware that he has com- pleted his task ... whereupon my friend wakens abruptly, to dis- cover himself alive, at home, in his own bed.


- "A pentagram for conjuring the narrative" (em 5 partes), Hollis Frampton em Circles of Confusion.

4.7.09

VII. Aorta

"Vejo-me daqui a dez anos sem você... lendo no jornal que você morreu... com uma sensação de dejá-vu... já perdida... o eco distante de algo que desconheço... sua ausência hoje, que jamais conheci... mas que poderia nomear... como se meu programador tivesse previsto tudo... o que aconteceu e o que poderia ter sido feito. Esse vazio que se tem quando se busca uma palavra que estava na ponta da língua. Eu teria a sua morte na ponta da minha memória."

- Chris Marker explodindo História no meu coração, barricadas de aorta, em Level 5, 1997

16.6.09

VI. Meditação óssea



John Cage

Works for cello
Lecture on nothing
...com fones bem gostosos... dissolvendo os olhos...

6.6.09

V. Coração subterrâneo




Um breve videograma nascido do lapso. Tapa generoso. O que seria esse playground que você wanna talk about? Super-heróis com conta pra pagar. Apreciação mútua.












Mutual appreciation, de Andrew Bujalski (2005)
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31.5.09

IV. Apêndice americano

"O esquematismo do procedimento mostra-se no fato de que os produtos mecanicamente diferenciados acabam por se revelar sempre como a mesma coisa. A diferença entre a série Chrysler e a série General Motors é no fundo uma distinção ilusória, como já sabe toda criança interessada em modelos de automóveis. As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. O mesmo se passa com as produções de Warner Brothers e da Metro Goldwyn Mayer. Até mesmo as diferenças entre os modelos mais caros e mais baratos da mesma firma se reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se reduzem ao número de cilindros, capacidade, novidade dos gadgets, nos filmes ao número de estrelas, à exuberância da técnica, do trabalho e do equipamento, e ao emprego de fórmulas psicológicas mais recentes. O critério unitário de valor consiste na dosagem da conspicuous production, do investimento ostensivo. Os valores orçamentários da indústria cultural nada têm a ver com os valores objetivos, com o sentido dos produtos. Os próprios meios técnicos tendem cada vez mais a se uniformizar. A televisão visa uma síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtos da indústria cultural pode vir a triunfar abertamente já amanhã ─ numa realização escarninha do sonho wagneriano da obra de arte total. A harmonização da palavra, da imagem e da música logra um êxito ainda mais perfeito do que no Tristão, porque os elementos sensíveis ─ que registram sem protestos, todos eles, a superfície da realidade social ─ são em princípio produzidos pelo mesmo processo técnico e exprimem sua unidade como seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de elaboração integra todos os elementos da produção, desde a concepção do romance (que já tinha um olho voltado para o cinema) até o último efeito sonoro. Ele é o triunfo do capital investido. Gravar sua onipotência no coração dos esbulhados que se tornaram candidatos a jobs como a onipotência de seu senhor, eis aí o que constitui o sentido de todos os filmes, não importa o plot escolhido em cada caso pela direção de produção. "

Theodor W. Adorno após sessão de Iron Man (2008) no cinematógrafo, em Dialética do esclarecimento (1947).

29.5.09

III. Alma tailandesa


essa coisa espaço tempo
fôrma centrípeta
passa passa passapasssa
vem vem vem vemvem
aquele silêncio perguntador
daquilo que recheia o Entre



essa inércia desproporcionada por uma luta selvagem:
vamos e não vamos: matérianãomatéria: enigma circular
um círculo limpo, do tamanho de um copo.




ao ver Syndromes and a century, de Apichatpong Weerasethakul (2006)
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16.5.09

aí vem Pedro Costa: Ne change rien

"
Faço música porque gosto muito de ouvir música e porque gosto muito de cantar. Porque quando ouço uma cantora que admiro, tenho logo vontade de fazer a mesma coisa. Jouvet dizia que o ator é o doido que ouve Haïfez tocar na sala Pleyel e que, enquanto o ouve, se imagina perfeitamente no lugar dele. Para esta minha disposição há alguns pontos de apoio, ou melhor, pontos de partida: a ópera, o lied, Marylin Monroe, Blossom Dearie, Kurt Weill e as atrizes-cantoras alemãs, Aretha Franklin, Patti Smith, Blondie, Nico e Mo Tucker.
Gosto muito particularmente da idéia de acorde. Encontrar o acorde, os acordes, acordar-se, nesse antigo sentido de oferecer-se, acordar-se aos outros, e acordar as coisas a nós. Dou-me conta de que a música é a única da artes que pratico que não se sustenta necessariamente sobre a encenação dum antagonismo, ao contrário do teatro ou do cinema que nunca desdenham um combate de morte entre as suas personagens e que exigem constantemente dos seus intérpretes um afrontamento, pequeno ou grande. Na música há o uníssono, a harmonia, e, se possível a síncope (outra forma de acorde, de trégua), parece-me que nela podemos verdadeiramente caminhar lado a lado, de mãos dadas. Nela encontro uma forma de liberdade que, embora nunca deixando de ser um combate, jamais passa pelo confronto. E nela procuro, incessantemente, um abandono. Fazer música, para mim, contém sempre uma maravilhosa promessa de abandono. Talvez como a criança que levada pelo amor, por um olhar, por uma atenção (o ritmo, a melodia, a harmonia) abandona os braços da mãe para caminhar sozinha no vasto mundo, com o espírito livre e o corpo liberto. "Como uma rolha de cortiça num ribeiro", dizia Orson Welles a Jeanne Moreau a propósito de outra coisa. É engraçado, sempre senti que ser atriz, para mim, era um regresso ao tempo do recém-nascido: lavado, vestido, penteado, observado; e o ser atriz de teatro, um regresso ao encantamento das primeiras palavras. Talvez o ser cantora rememore, indefinidamente, a vertigem dos primeiros passos - antes da palavra ou da primeira braçada - já depois da idade da razão.
"

Jeanne Balibar, 26 de abril de 2009

15.5.09

Let it bleed

Estava avisado. Olhava pra estrada. Não quis capacete. Pedregulhos e ar fresco. Útero sônico. Tudo bem. As marchas são no pé. Aquela calmaria de sempre. Vamos lá. Que vento. Olho seco ardendo que nem piscina. Ins-. Borrões de árvore. Todo resto preso girando. Como um laço. Instá-. Pedras rolando. Estava avisado. Frente alta. Pneu voador. Que nem piscina. Dor. -tável. Solo. Inércia de sempre. Vasoura humana. Hmm, sangue. Como pincelada. Pedras rolando. Que bonito. Solo. Estou avisado. Atrito cortando. Costas novas. Hm. Vermelh-. Parede natural. Tronco com tronco. Cabeça no tronco. Mais um milí-milime-milési-mi-. aiaia- mbulância. -visei você.
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8.2.09

revisãoabc espiritismo reciclável


o lixo se recicla, isso já é muito difundido, principalmente para a juventude. Dá pra se tirar muita coisa dele, inclusive seu futuro lixo. Com o tempo essas coisas todas viram um lixo filosófico, reencarnado com uma maldade esquisita. De onde viria isso? Do homem ou da idéia que o homem tem do lixo? Não interessa, realmente, pois é uma questão desimportante, mas a questão não seria bem essa, seria algo mais categórico e tãoquãomente tão retórico quanto uma embalagem de bombons: "qual o sentido da vida?"

Reciclando se reencarna, ensinam isso. Mas o que vem e o que vai, em que direção e a força com que pode ir? Porque não reciclam as coisas que não se podem triturar? Então com muita calma se pergunta uma pergunta inverossímel e passível: "qual o sentido? Da vida?"

"Lembrar de separar recicláveis". Colado na geladeira, como um manifesto da higiene mental, estampado bem direitinho pra não dar indigestão moral. Bota lá "Qual o sentido da vida. Conferir na segunda-feira". Aí sim começamos a cozinha pelo lado menos bom e menos mau. Azulejo quadradinho, delimitado. "Terça-feira. Pesquisar 'qual o sentido da vida?"

Com o tempo a pergunta vai deixando de dar tremedeira e aí se pode reciclar e separar as coisas em cores.


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gosmagosma tocou a campainha


Da série textos que vão pro lixo

zing zing, tocou alto. Foi ver e era um monstro horrível. Deixou entrar e ofereceu o almoço pegando o chapéu e botando na chapeleira. Quanto ódio e raiva, não dava pra explicar falando apesar disso poder ser dito. Sentado a mesa o monstro disse coisas que não deveriam ser ditas a mesa, com gosma escorrendo:
- Não existe mais um pingo de resquício de desprezo ou adoração por você. Só resta a indiferença, essa morte implacável que destruiu meus jantares e noites com anestesia grave. Não há mais nada e isso é tudo que não posso deixar que escorra dessa gosma. Você não existe mais, assim como essa cadeira, um amor tão seco que nem se chama assim, se chama "ter", se chama "poder". É um monólogo desconexo, pois você não existe mais que essa porta. Que morte implacável, deus meu, me permita ser triste por você? Um pouco?

Então ela serviu o prato. Mas aí ela já não existia mais.

gosmagosma fluindo, descendo pra onde não se sabe e onde não se diz. Que mistério é esse, seu deus filho da puta?, pensou.


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atrapaçaatropelolixolixobamgbamgbostaagosma


ratos de sapatos atravessam a rua calmamente em busca do endereço certo pra entrevista do emprego novo que fará com que comprem novas sandálias para as ratinhas que aguardam na toca um amor de verdade que não virá pois ele circula por aí em busca de coisa solta e simples como o faról que não tem muito segredo além de parar avisar e deixar ir aqueles que querem chegar independente dos pedestres de sapato com rato atropelado e morto ali mesmo antes de saber se tinha conseguido a bosta do emprego que sustentaria sonhos que não se moverão nunca até que os faróis sejam algo além de símbolos ratos trêscolores que piscam e piscam até que algo surja como um atropelo de ódio e amor


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