
Erupções do Eu, dizimações do Você. Remendos eternamente provisórios.
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Aquele querido mês de agosto é um filme de fronteira. Humana, de alcance, estética, e de língua para os brasileiros. Conta-se uma histórinha que não importa, uma fábula apodrecendo em outros filmes e cinemas, que já foi vista de tantas maneiras em análise combinatória, que se chegou ao ponto de que ficção é constatação pública. Loteria garantida. Usando dessa impossibilidade de contar algo novo nos moldes antigos, o filme mergulha na pré-produção, assumindo-a como pesquisa e processo. Mas não se trata apenas - apenas- de outra metalinguagem deslumbrada com o reflexo, mas da tentativa de encontrar um mapa interior e anterior ao filme em si. E nesse movimento encontramos o que conhecemos (ou não) como - reparando nos itálicos aspáticos- documentário, encenação, registro pesquisativo, road movie, filme de arte, drama, dramalhão artístico, música brega, enfim, em processo.


"Vejo-me daqui a dez anos sem você... lendo no jornal que você morreu... com uma sensação de dejá-vu... já perdida... o eco distante de algo que desconheço... sua ausência hoje, que jamais conheci... mas que poderia nomear... como se meu programador tivesse previsto tudo... o que aconteceu e o que poderia ter sido feito. Esse vazio que se tem quando se busca uma palavra que estava na ponta da língua. Eu teria a sua morte na ponta da minha memória."
"O esquematismo do procedimento mostra-se no fato de que os produtos mecanicamente diferenciados acabam por se revelar sempre como a mesma coisa. A diferença entre a série Chrysler e a série General Motors é no fundo uma distinção ilusória, como já sabe toda criança interessada em modelos de automóveis. As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. O mesmo se passa com as produções de Warner Brothers e da Metro Goldwyn Mayer. Até mesmo as diferenças entre os modelos mais caros e mais baratos da mesma firma se reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se reduzem ao número de cilindros, capacidade, novidade dos gadgets, nos filmes ao número de estrelas, à exuberância da técnica, do trabalho e do equipamento, e ao emprego de fórmulas psicológicas mais recentes. O critério unitário de valor consiste na dosagem da conspicuous production, do investimento ostensivo. Os valores orçamentários da indústria cultural nada têm a ver com os valores objetivos, com o sentido dos produtos. Os próprios meios técnicos tendem cada vez mais a se uniformizar. A televisão visa uma síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtos da indústria cultural pode vir a triunfar abertamente já amanhã ─ numa realização escarninha do sonho wagneriano da obra de arte total. A harmonização da palavra, da imagem e da música logra um êxito ainda mais perfeito do que no Tristão, porque os elementos sensíveis ─ que registram sem protestos, todos eles, a superfície da realidade social ─ são em princípio produzidos pelo mesmo processo técnico e exprimem sua unidade como seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de elaboração integra todos os elementos da produção, desde a concepção do romance (que já tinha um olho voltado para o cinema) até o último efeito sonoro. Ele é o triunfo do capital investido. Gravar sua onipotência no coração dos esbulhados que se tornaram candidatos a jobs como a onipotência de seu senhor, eis aí o que constitui o sentido de todos os filmes, não importa o plot escolhido em cada caso pela direção de produção. "