7.7.08

Açúcar

Braços pesadíssimos envoltos em um manto de açúcar, umidade com cheiro doce soca estupidamente os sentidos. Estaria ali há ...não sabia, então não se perguntava. Estava imersa em forma branca e arenosa, cada vez que se movia ouvia-se a extensão dos infinitos grãos baterem entre si, causando um efeito em cadeia que parava nas paredes do pote. Desconfiava que não se moveria muito mais vezes, então não sentiria mais o eco que as paredes do plástico duro faziam voltar através de grãos muito obedientes.
Com o tempo acostumou-se com sua doce prisão, sabendo aproveitar-se dos ecos para calcular a distância em que estava da grande tampa que suspeitava ser laranja, sim, talvez laranja, mesmo que já tenham se passadas algumas horas de seu infeliz descuido selvagem, sua memória a fazia acreditar ser uma lisa e redonda tampa laranja que a tenha atraído até ali. Em casa ainda deviam estar imaginando alguma trilha desfeita ou um imprevisto qualquer, então ainda não se preocupava com o que viria acarretar sua morte. Surpreendeu-se pois era a primeira vez em que pensava na morte de modo tão patético, como um fim de festa em que os pecados se dissolvem. Talvez fosse a melhor morte que poderiam lhe dar, alguma espécie de santidade generosa que escolhia as mais trabalhadoras formigas e lhe entregavam um imenso pote de açúcar como túmulo heróico em que um dia transcenderia numa xícara de chá que lavaria seu corpo grandioso, e todo pó arenoso se dissolveria enquanto sua alma boiaria triunfante nos contos de seu Reino.
Sua consciência bamboleava com o odor que vinha de todos os lados arranhando seu corpo, comera um punhado de grãos que a lembravam que seu caminho até ali havia valido a pena, era sua energia vital. Antes de partir se escusou para apresentar-se a quem porventura viesse encontrar dali em frente: com toda Sua licença, permita-me apresentar: nascido no Formigueiro de Braczyl chego a este pote abençoado como ato final de meu trabalho em vida, que deste corpo forte nasça alguma espécie de vida, pois chego a seu Reino sem saber-Lhe o nome ou endereço, prazer, espero que saiba meu nome.
E saiu do pote sem sair.

.r

2 comentários:

ana beatriz disse...

Sabe quando a gente acorda e se pergunta se irá um dia plantar uma árvore e escrever um livro?

Não sei se Deus existe.

Quem te deu esse dom?

rayuela disse...

"um fim de festa onde os pecados se dissolvem"

acho que pior do que isso é só um fim de festa onde se dissolvem as intenções de pecados não alcançados.