29.1.12




















operai, contadini
ouvriers, paysants
arbeiter, bauern
(2001)

26.1.12

Cinemeteorologia
Serge Daney
20 de fevereiro de 1982

Os Straub passam um dia no campo. Na França e depois no Egito, eles captam signos formais: toda revolução é um pé de vento. Mas, novamente, é preciso saber filmar o vento.
Qual é o ponto comum entre John Travolta e Jean-Marie Straub? Ques- tão difícil, concordo. Um dança, o outro não. Um é marxista, o outro não. Um é muito conhecido, o outro menos. Ambos têm seus fãs. Eu, por exemplo.
No entanto, basta ver seus filmes lançados no mesmo dia nas telas parisienses para compreender que uma mesma preocupação os atormen- ta. Uma preocupação? Uma paixão, de preferência. A do som. Faço alusão a Blow Out (dirigido por Brian De Palma) e a Cedo demais, tarde demais (coassinado por Danièle Huillet), dois bons filmes, duas magníficas tri- lhas sonoras.
O cinema são “imagens e sons”, talvez você insista em pensar. E se fosse o contrário? E se fossem sons e imagens? Sons que provocam a ima- ginação do que vemos e a visão do que imaginamos? E se o cinema fosse também a orelha que se apruma—tal a de um cachorro, ereta—quando o olho não se orienta mais? Num terreno descoberto, por exemplo.
Em Blow Out, John Travolta interpreta o papel de um louco dos sound effects que, a partir de um barulho, identifica um crime e seu autor. Em Cedo demais, tarde demais, Straub, Huillet e seu engenheiro de som ha- bitual, o grande Louis Hochet, perdem-se no interior da França antes de começarem a errar ao longo do Nilo e em seu delta, no Egito. A partir dos ruídos, de todos os ruídos, dos mais ínfimos aos mais finos, eles identifi- cam também um crime. O local do crime: a terra; as vítimas: os campone- ses; as testemunhas: as paisagens. Quer dizer, as nuvens, os caminhos, a grama, o vento.
Em junho de 1980, os Straub foram filmar durante quinze dias no interior da França. Eles foram vistos em lugares tão improváveis quan- to Tréogan, Mottreff, Marbeuf ou Harville. Eles foram vistos rondando próximo a grandes cidades: Lyon, Rennes. Sua ideia, aquela que preside a execução desse opus 12 de sua obra (vinte anos de cinema já!), era de filmar tais como são hoje um certo número de lugares citados numa carta enviada por Engels ao futuro desertor Kautsky. Nessa carta (lida em off por Danièle Huillet), Engels descreve, baseado em números, a miséria das áreas rurais às vésperas da Revolução Francesa. Os lugares, sem dúvida, mudaram. Em primeiro lugar, eles estão desertos. O interior da França, diz Straub, tem um “aspecto de ficção científica, de planeta abandona- do”. Talvez as pessoas vivam nele, mas não o habitam mais. Os campos, os caminhos, as cercas, as paredes de árvores, são marcas da atividade humana, mas os atores são os pássaros, alguns carros, os ruídos, o vento.
Em maio de 1981, os Straub estão no Egito e filmam outras paisagens. O guia, dessa vez, não é mais Engels, mas um marxista mais recente, o autor das recentemente famosas La lutte de classes en Égypte. Mahmoud Hussein. Off novamente, a voz de um intelectual árabe narra em francês (mas com sotaque) a resistência camponesa à ocupação inglesa, até a revolução “pequeno-burguesa” de Neguib em 1952. Uma vez mais, os cam- poneses se revoltam cedo demais e chegam tarde demais quando se trata do poder. Essa repetição obsessiva é o “conteúdo” do filme. Tal um mo- tivo musical, ele é apresentado logo no início: “os burgueses aqui foram como sempre muito covardes para defender seus próprios interesses / desde a Bastilha, a plebe tem que fazer todo o trabalho” (Engels).
O filme é, pois, um díptico. Um, a França. Dois, o Egito. Não há ator, nem mesmo personagens, e, sobretudo, não há figurantes. Se há um ator em Cedo demais, tarde demais, é a paisagem. Esse ator tem um texto: a História (as paisagens que resistem, a terra que permanece) da qual ele é o testemunho vivo. Esse ator interpreta com maior ou menor talento: a nuvem que passa, um alvoroço de pássaros, um conjunto de árvores dobradas pelo vento, uma clareira, é disso que é feita a interpretação da paisagem. Essa forma de interpretar é meteorológica. Não vimos algo assim há muito tempo. Desde o cinema mudo, exatamente.
Vendo Cedo demais, tarde demais (sobretudo a primeira parte), lem- brei-me de um outro filme, rodado em Hollywood em 1928 pelo sueco Victor Sjöstrom, O vento. Esse filme magnífico mostrava Lillian Gish en- louquecendo com o barulho do vento. O filme era “mudo”, e isso só lhe conferia mais força. Qualquer um que tenha visto O vento sabe que esse filme é uma alucinação auditiva. Nunca houve “cinema mudo”, aliás, ape- nas um cinema surdo ao tumulto que se produzia no interior do especta- dor, no seu próprio corpo, quando este se tornava a câmera de ecoar as imagens; as do vento, por exemplo.
Foi preciso esperar o cinema sonoro para que o silêncio tivesse uma chance. E, ainda, Bresson é otimista quando escreve “o cinema sonoro inventou o silêncio”; inventou a possibilidade do silêncio, apenas. Guar- demos o exemplo do vento. Não temos grandes lembranças do vento nos filmes dos anos trinta, quarenta, cinquenta. Ou melhor, eram tempestades que faziam ooouuuh! nos filmes de pirata. Mas o vento do norte, aquele entra pelas frestas, as correntes de ar, todos esses ventos tão próximos do silêncio? E o Zéfiro? E a brisa noturna? Não, foi preciso esperar os anos sessenta, as pequenas câmeras com sincronia, os cinemas novos. Foi preciso esperar Straub e Huillet.
Devido ao ponto de refinamento que eles atingiram na prática do som direto, ocorre um fenômeno bem estranho nos seus filmes recentes (como Da nuvem à resistência). Encontramos as alucinações auditivas próprias ao cinema “mudo”. O mesmo fenômeno de certos filmes recentes de alguns “velhos” da Nouvelle Vague: Rouch (Ambara Damba), Rohmer (A mulher do aviador), Rivette (Le Pont du Nord). Como se o som direto devolvesse a falta de som. Como se, de um mundo integralmente sonoro, ressurgisse um corpo de ator vagamente burlesco.
Normal: quando o cinema era “mudo”, estávamos livres para em- prestar-lhe todos os ruídos. Foi quando ele começou a falar, e sobretudo após a invenção da dublagem (1935), que nada mais resistiu ao estouro de diálogos e de música. Os ruídos baixos, imperceptíveis, não tiveram chance alguma. Foi um genocídio.
Recuperamo-nos lentamente. Na América, por uma perversão de efeitos sonoros (ver Travolta), na França pela reeducação do ouvido, esse grande mutilado (ver Straub). Cedo demais, tarde demais é, que eu saiba, um dos raros filmes que, depois do de Sjöstrom, filmou o vento. É preciso vê-lo—e escutá-lo—para acreditar. É como se a câmera e a frágil equipe de filmagem tomassem o vento como uma vela e a paisagem como um mar. A câmera brinca com o vento, segue-o, ultrapassa-o e retrocede, como uma bola de bilboquê. É como se a câmera estivesse presa por uma coleira ou submetida a uma outra máquina, como aquela inventada por Michael Snow no filme siderante que é La Région centrale (em Snow tam- bém o terreno de jogo da câmera é uma espécie de planeta abandonado).
Ver e escutar ao mesmo tempo; mas é impossível, dirá você! Certa- mente, mas, um: os Straub são corações valentes; e, dois: as viagens ao impossível são um tanto formadoras. Com Cedo demais, tarde demais, uma experiência é buscada conosco, em nós: há momentos em que come- çamos vendo (uma grama que o vento arqueia), antes de escutar (o vento responsável por esse arqueamento). Em outros momentos, escutamos primeiro (o vento), depois vemos (a grama). A imagem e o som são sin- crônicos e, no entanto, a cada instante cada um de nós pode experimentar a ordem em que acomoda suas sensações. É, pois, um filme sensacional.
Essa é a primeira parte, o deserto francês. As coisas acontecem de outra forma no Egito superpovoado. Lá, os campos não são mais va- zios, há fellahs que vagam; não se pode mais ir a qualquer lugar, filmar qualquer um de qualquer jeito. O terreno do jogo se torna novamente o território dos outros. Os Straub concedem uma grande importância ao fato de que um cineasta não deveria incomodar aqueles que filma (quem conhece seus filmes sabe que, quanto a isso, eles são intransigentes). É preciso, então, ver a segunda parte de Cedo demais, tarde demais como um jogo estranho, feito de aproximações e recuos, no qual os cineastas, menos meteorologistas do que acupunturistas, buscam o lugar—o único, o bom—de onde sua câmera poderá captar as pessoas sem as incomodar. Dois escolhos, imediatamente: o turismo exotomaníaco e a câmera invi- sível. Tão perto, tão longe. Em uma longa “cena”, a câmera está plantada diante da porta de uma usina e mostra os operários egípcios que passam, entram e saem. Muito perto para que eles não vejam a câmera, muito longe para que eles fiquem tentados em ir em sua direção. Encontrar esse ponto, esse ponto moral, é aí que está toda a arte dos Straub; talvez com a esperança de que, para os “figurantes” filmados dessa forma, a câmera e a frágil equipe escondida bem no meio de um campo ou de um terreno vazio sejam apenas um acidente da paisagem, um simpático espantalho, mais uma miragem trazida pelo vento.
Esses escrúpulos surpreendem. Eles não são correntes. Filmar, sobre- tudo no interior, é em geral devastar tudo, irromper na vida das pessoas, fazer delas uma vinheta de camponês, do regionalismo, do regresso, do ranço, do museu. Porque o cinema pertence à cidade, e ninguém nunca soube ao certo o que seria um “cinema camponês”, ancorado na vivência, no espaço-tempo camponês. É preciso, então, ver os Straub, habitantes das cidades, navegantes em terra firme, perdidos. É preciso vê-los no meio do campo, com o dedo umedecido erguido para pegar o vento e as orelhas esticadas em direção do que ele diz. Então, a sensação mais nua serve de bússola. Todo o resto, o ético e o estético, o fundo e a forma, deriva disso.
Podemos não suportar a experiência. Isso foi verificado. Podemos não suportar mais a própria ideia de experiência. Isso se verifica todos os dias. Podemos definir que filmar apenas o vento é uma operação ridícula. O vento, justamente. Podemos também passar ao largo do cinema quan- do ele se arrisca a sair de si mesmo.

(publicado no catálgo Straub-Huillet)

20.1.12

Você olhava a oliveira, a oliveira na trilha que percorreu
todos os dias durante anos e chega o dia
Em que o tédio o abandona.
E você acaricia o velho tronco com o olhar,
Quase como se ele fosse um amigo reencontrado 
que lhe dissesse exatamente
a única palavra
Que seu coração esperava

(Cesare Pavese?)


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cicuta às avessas


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17.1.12

O espetáculo em Numa sessão de hipnotismo (Tchékhov, 1883) lembra a decupagem de Bresson em Pickpocket. Além disso há nuances nas coisas secundárias, como os médicos que examinam o hipnotizado, sustentando a ambiguidade dos veredictos (eles também seriam comprados pelo hipnotizador ou o dinheiro realmente alterou os batimentos, a temperatura e a pressão do hipnotizado?). Paralelo indireto com Low life e a história dos médicos que examinam o garoto africano e redeterminam sua idade pelo tamanho dos ossos. Isso leva o garoto a um sono desesperador. Em Tchékhov quando o braço rígido se estende alguém na plateia grita –– Bravo! Como o de um cadáver! Eis a força do conto: não só ver o sono dos outros, mas fazer ver os mesmos dormindo por motivo idêntico ao do coletivo. Coloca-se, exemplarmente, a questão do sono coletivo a partir de pequenos sonos.

Os senhores têm os fatos, e eu, duas notas de cinco rublos.

Uma grande lição a se tirar: o sono recai nas pequenas cenas, e nelas revela sua onipresença. Não é à toa que hipnose e dinheiro estejam ligados intrinsecamente não apenas aqui como também, de maneira implícita, n'A mulher do farmacêutico. Mais uma vez, o todo pela parte.

(Não desconsiderar a ironia final, do fato do hipnotizador ser o mais íntegro entre os protagonistas; sua hipnose é manipulação do outro, sim, mas explicitada aos olhos da plateia, tornando-se, ironicamente, antiespetacular). Dialética.

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15.1.12

A mulher do farmacêutico 
Anton Tchékhov, 1886

O lugarejo de B.., formado por duas ou três ruazinhas tortas, dorme seu sono pesado. No ar espesso o silêncio é total. Ouve-se apenas, ao longe, fora dos limites da cidade, o latido ardido e líquido de um cão que aos poucos enrouquece. É quase o amanhecer.

Há muito tempo que tudo está dormindo. A única que não dorme é a jovem mulher do boticário Tchornomordik, proprietário da farmácia de B… Já tentou deitar-se três vezes, mas, não sabe por quê, o sono teima em não querer chegar. Sentada, a janela aberta, veste apenas uma camisola e olha para a rua. Sente calor, tédio, desgosto. Tanto desgosto que lhe dá até vontade de chorar; de novo, não sabe por quê. Sente um nó no peito que de repente lhe chega a garganta… Poucos passos atrás dela, colado à parede, dorme Tchornomordik e ronca baixinho. Uma pulga esfomeada suga-o a raiz do nariz, mas ele não percebe e até sorri, pois está sonhando que todos na cidade estão com tosse e compram dele, interminavelmente, as gotas do rei da Dinamarca. Nenhuma picada poderia acordá-lo agora, nem um canhão, nem uma carícia.

Como a farmácia encontra-se quase no limite da cidade, a mulher do boticário consegue ver o campo, ao longe… Vê como o céu aos poucos faz-se branco, do lado do leste, e depois se torna púrpura, como que devido a um grande incêndio. Inesperadamente, de trás de um longínquo arbusto desponta o grande rosto da lua. Ela é vermelha (não sabe por que a lua saindo detrás dos arbustos sempre tem um quê de terrivelmente confuso).

De repente, no meio da calma noturna, ressoam passos e o retinir de esporas. Ouvem-se vozes.

Pouco depois surgem dois vultos e dois uniformes brancos de oficiais: um é grande e gordo, o outro menor e mais fino… Arrastam, preguiçosos, uma perna atrás da outra, ao longo da sebe, e conversam ruidosamente. Diante da farmácia diminuem ainda mais o passo e olham para as janelas.

- Sente-se cheiro de farmácia… – diz o magro. – E é uma farmácia! Ah, estou lembrando… Na semana passada vim aqui comprar óleo de rícino. O farmacêutico tem um rosto azedo e uma queixada de burro. Pois é, meu amigo, a queixada! Aquela mesma com que Sansão deu cabo dos filisteus.

- S-sim… – diz o gordo, com sua voz de baixo. – O farmacêutico dorme e dorme a mulher do farmacêutico. Por sinal, Obtiossov, ela não é de se atirar aos cães.

- Eu a vi. E gostei… Diga-me doutor, será que ela pode gostar de uma queixada dessas? O senhor acha isso possível?

- Não, provavelmente, não gosta – suspira o médico com uma expressão como que de pena pelo farmacêutico. – A mamãezinha está dormindo atrás das janelas. Que acha, Obtiossov? Deitou-se, de tanto calor… a boca entreaberta… a perna caída, fora da cama. E a besta do farmacêutico não está com nada… Para ele, provavelmente, uma mulher ou um vidro de fenol são a mesma coisa.

- Sabe de uma coisa, doutor? – diz o oficial, parando.

- Que tal entrar na farmácia e comprar alguma coisa? Quem sabe a gente vê a farmacêutica?

- Imagine – de madrugada!

- E daí? De madrugada também tem de atender. Entremos, por favor…

A farmacêutica escondida atrás da cortina ouve o som rouco da campainha. Olha para o marido que, como dantes, ronca baixinho e sorri. Veste rapidamente a roupa, calça o sapato sem meia e corre para a loja.

Atrás da porta de vidro vêem-se duas sombras… A farmacêutica aumenta a luz da lamparina e abre a porta depressa. Já não sente tédio, nem desgosto, nem vontade de chorar; apenas o coração bate, forte. Entram o doutor gorducho e o esbelto Obtiossov. Agora pode olhá-los à vontade. O doutor barrigudo é moreno, barbado e lerdo. Ao menor movimento seu uniforme estala e seu rosto cobre-se de gotas de suor. Ao contrário, o oficial é rosado, sem barba, feminino e flexível como um chicote inglês.

- O que desejam? – pergunta a farmacêutica, segurando com uma das mãos o decote do vestido.

- Bem… dê-nos quinze copeques de pastilhas de hortelã. Sem se apressar, a mulher retira da prateleira a lata e começa a pesar. Os clientes olham para ela, de costas, sem pestanejar: o médico de olhos semicerrados, como um gato satisfeito, e o tenente, sério.

- É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhar numa farmácia – diz o médico.

- Não há nada de estranho – responde a farmacêutica olhando de viés para o rosto rosado de Obtiossov.

- Como meu marido não tem ajudantes, quem o ajuda sou eu.

- É assim? Pois a senhora tem uma linda farmácia! Um montão dessas… latas! E a senhora não tem medo de estar sempre às voltas com venenos? Brrr!

A farmacêutica embrulha as pastilhas e as entrega ao médico. Obtiossov dá-lhe uma moeda de quinze copeques. Meio minuto de silêncio.. Os homens entreolham-se, dão um passo em direção à porta, olham-se de novo.

- Dê-me dez copeques de bicarbonato de sódio! – diz o médico.

De novo a farmacêutica move-se devagar e estende lentamente o braço para a prateleira.

- Será que aqui na farmácia não tem alguma coisa… – resmunga Obtiossov mexendo os dedos -, alguma coisa, assim, a senhora sabe, de alegórico, algum licor revigorante… gasosa, isso! A senhora tem gasosa?

- Tenho – responde a farmacêutica.

- Excelente! A senhora não é uma mulher, é uma feiticeira. Arranje-nos então umas três garrafas.

Ela embrulha o bicarbonato de sódio e desaparece na sombra atrás da porta.

- Uma fruta! – diz o medico, piscando; – Um ananás como esse, Obtiossov, você não encontra nem sequer na ilha da Madeira. Hem? O que você acha? Porém.. está ouvindo o ronco? É o senhor farmacêutico que resolveu dormir em santa paz.

Um minuto mais tarde a farmacêutica está de volta com cinco garrafas que coloca no balcão. Acaba de subir do porão, por isso ela está corada e um pouco agitada.

- Sss… mais baixinho – diz Obtiossov quando ela deixa cair o abridor, após ter destampado as garrafas. – Não faça tanto barulho, senão acorda seu marido.

- E daí, o que é que tem se ele acordar?

- Ele dorme tão bem… está sonhando com a senhora… À sua saúde!

- Além do que – acrescenta o médico com sua voz de baixo, após um gole de gasosa -, quanto ao marido, é uma coisa tão cacete que seria bom ele dormir sempre. Eh, com essa água, até que um vinhozinho ia bem.

- O que mais o senhor quer inventar! – ri a farmacêutica.

- Seria magnífico. É uma pena que não se vendam bebidas alcoólicas em farmácia. Mas… a senhora deve vender vinho, como remédio. A senhora por acaso tem vinum gallicum rubrum ?

- Tenho.

- Viva! Traga-o, traga-o, com os diabos!

- Quanto o senhor quer?

- Quantum satis. Para começo de conversa, traga uma onça num copo de água, depois veremos… Não é assim, Obtiossov? Primeiro com a água, depois já per se…

O médico e Obtiossov sentam-se perto do balcão, tiram seus quepes e começam a beber o vinho tinto.

- É preciso convir, é horrível. Vinum malissimum. Embora em companhia de… he, he, he… ele pareça um néctar. Madame, a senhora é encantadora! Beijo-lhe a mão em pensamento.

- E o que eu daria para não fazê-lo em pensamento! – falou Obtiossov. – Palavra de honra! Daria a vida.

- Deixe disso… – falou a senhora Tchernomódrik, corando e assumindo um ar de seriedade.

- E, no entanto, como a senhora é coquete – ri o doutor baixinho, olhando-a de baixo, maliciosamente.

- Seus olhos disparam: pam! pam! Parabéns, a senhora ganhou! Fomos atingidos!

A farmacêutica olha para seus rostos corados, ouve suas palavras e logo ela também se anima. É tão divertido! Entra na conversa, ri, flerta e até, após tantos pedidos, consente em beber duas onças de vinho tinto.

- Ah, se vocês oficiais viessem mais vezes do acampamento para a cidade – diz ela. – Aqui é tão aborrecido. Morro de tanto tédio.

- Não faça isso! – exclama o doutor horrorizado. – Uma fruta dessas… um milagre da natureza nesse lugar perdido. Bem que Griboiédov disse: “Para o deserto, para Sarátov!” Infelizmente, já está na hora. Tive imenso prazer em conhecê-la. .. Imenso. Quanto lhe devemos?

A farmacêutica levanta os olhos para o teto e move demoradamente os lábios.

- Doze rublos e quarenta e oito copeques – diz, afinal.

Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, fica um tempão remexendo entre as notas e acerta a conta.

- Seu marido dorme em paz… sonha… – resmunga ele, apertando o braço da farmacêutica, ao despedir-se.

- Não gosto de ficar ouvindo besteiras…

- Mas que besteiras… Já Shakespeare dizia: “Feliz daquele que foi jovem quando jovem”.

- Solte meu braço!

Finalmente, depois de longas conversas, os clientes beijam a mão da farmacêutica e, incertos, como se temessem ter esquecido alguma coisa, saem da farmácia.

Ela corre logo para o quarto e senta-se à mesma janela. Vê que o doutor e o tenente, após terem saído da loja, andam uns vinte passos sem vontade, depois param e começam a bisbilhotar entre si. O coração dela bate. Sobre o que será? As têmporas também latejam, por quê, ela mesma não sabe… O coração bate forte, como se aqueles dois, bisbilhotando lá fora, fossem decidir seu destino.

Uns cinco minutos depois o médico se afasta de Obtiossov e prossegue, enquanto o outro retorna. Passa pela farmácia uma, duas vezes… Pára perto da porta, começa a andar de novo. Afinal, toca com cuidado a campainha.

- O que há? Quem está aí? – a farmacêutica ouve de repente a voz do marido. – Estão tocando e você não escuta? Que droga!

Ele levanta, veste o robe e balançando, meio sonado, arrasta os chinelos e vai até a loja.

- O que… o senhor quer? – pergunta a Obtiossov.

- Dê-me… dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.

Tchornomordik sopra, boceja, anda dormindo, bate com os joelhos no banco, sobe na prateleira e apanha a lata.

Dois minutos mais tarde a farmacêutica vê Obtiossov sair da loja e, depois de alguns passos, jogar na estrada poeirenta as pastilhas de hortelã. Da esquina o médico vem a seu encontro.. Ambos se juntam e, gesticulando com as mãos, desaparecem na bruma da manhã.

- Como eu sou infeliz! – diz a farmacêutica, olhando com ódio o marido que se despe depressa para deitar de novo.

- Oh, como eu sou infeliz! – repete ela, e de repente seus olhos se enchem de lágrimas. – E ninguém, ninguém desconfia…

- Esqueci quinze copeques no balcão – resmunga o marido desaparecendo sob o cobertor. Esconda-os na caixa, por favor…

E adormece imediatamente.

11.1.12


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