22.1.10

sobre o desrespeito de nós em função da trama


Duas caras. Uma mulher aos olhos de um homem que há muito desistiu do sexo. Curioso. Desse plot só se pôde decupar os significados mudos. O homem estava amarrado, então amarrou-se a imagem da mulher.

Como nós revoltados de uma trama oca, surge o turbilhão. Perseguição metafísica com bônus carnal, afinal, Kim Novak. Pendurada no quadro de seus desejos. Apertada à distância de um close. Nada se diz, porque não se sabe o que dizer, e isto - é o máximo.

E os desejos, curiosamente, são engraçados. O eterno tableaux do me ame, me ame. A fraqueza feminina é diferente da masculina, indecifrável aos olhos formais do tesão. Troque, coloque, tire, e fique loura. Representar o irrepresentável? Ou representar apenas? Ou meramente representar as penas?
Gosto de Midge, que sangra a sua maneira.


E o que sobra é o recorte mudo, de algo que não se compreende e o final do filme diz isso subterraneamente, quando precisa matar aquilo de que não consegue mais extorquir amor. É necessária essa eterna separação para o homem manter seus ideais e amores. Mata-se Kim Novak, e isso, definitivamente, está errado.

sobre Vertigo, 1958, Hitchcock

Um comentário:

mvy disse...

visto.

Digo: um homem jamais pode conscientemente viver de novo o já vivido.
Inconscientemente já fazemos isso. É o nosso pequeno eterno retorno.

Fora isso, há uma perversidade implícita, e a morte figura como a saída derradeira.
Pergunto, por que Judy pulou?
Óbvio talvez.
Achou ser ela que subia, e assumiu o lugar de Madeleine.

Marker deixa o recado: Madeleine - Proust.