26.1.11


...
esquecer nos torna presentes
esquecer-nos torna presente
...

um dia acreditei em recordar é viver
hoje, tornar o passado resquício no presente
esquecê-lo como passado. 

recordar é morrer
em alguma parte de si
...

quero esquecer algo de que não me lembro,
quero viver algo que está vivo.


24.1.11



jogado num canto freqüente 
o riso esquecido 
que coloca a jubilosa dúvida: 
sou eu um farsante? 

daí derivam duas hipóteses 
roçando sobre meus pés: 

1. se produzo falsidades sem consciência 
gozo o estado de enganar-me e enganar a todos 
sem saber do dito e do acontecido. 

2. se produzo falsidades cônscio 
gozo o estado mais puro do inventor 
sabendo que nada é o que deve ser. 

entorto o horizonte 
com o desejo de reencontrar noutro canto 
a cócega esquecida que rirá sempre 
sou eu um farsante?


22.1.11


o estoque de energia apodreceu
perdeu-se as conservas da utilidade

vento branco




2.1.11


PROSPERO

You do look, my son, in a moved sort,
As if you were dismay'd: be cheerful, sir.
Our revels now are ended. These our actors,
As I foretold you, were all spirits and
Are melted into air, into thin air:
And, like the baseless fabric of this vision,
The cloud-capp'd towers, the gorgeous palaces,
The solemn temples, the great globe itself,
Ye all which it inherit, shall dissolve
And, like this insubstantial pageant faded,
Leave not a rack behind. We are such stuff
As dreams are made on, and our little life
Is rounded with a sleep. Sir, I am vex'd;
Bear with my weakness; my, brain is troubled:
Be not disturb'd with my infirmity:
If you be pleased, retire into my cell
And there repose: a turn or two I'll walk,
To still my beating mind.


trecho da cena I, ato IV, 1610-1611
The tempest, William Shakespeare


30.12.10

Egoísmo estelar

Se, recipiente redondo, eu não rodasse
Em volta de mim mesmo sem parar,
Como aguentaria correr atrás
do Sol ardente sem me queimar?


rima 29, A Gaia Ciência, Friedrich Nietzsche








Gilles Deleuze
: (...) Se me permite, vou ler uma coisa que já li mil vezes e que todos os escritores já disseram. Mas vi este livro ontem, eu não o conhecia. É de um grande poeta russo, Mandelstam. Eu o estava lendo ontem.

Claire Parnet: Ele tem um nome lindo, poderia dizê-lo.

Gilles Deleuze: Sim, é Osip. Nesta frase, ele diz... É o tipo de frase que me transtorna. (...) Ele diz que não entende que alguém como Tolstoi se apaixone por arquivos familiares. Ele continua. "Eu repito: a minha memória não é amor, mas hostilidade. Ela trabalha não para reproduzir, mas para afastar o passado. Para um intelectual de origem medíocre, a memória é inútil. Basta-lhe falar dos livros que leu e sua biografia está feita. Dentre as gerações felizes, onde a epopéia fala através de hexâmetros e crônicas, para mim, parece um sinal de pasmaceira. Entre mim e o século, há um abismo, um fosso repleto de tempo fremente. O que queria dizer a minha família? Eu não sei. Era gaga de nascença e, no entanto, tinha algo a dizer. Sobre mim e muitos dos meus contemporâneos, pesa a gagueira de nascimento. Aprendemos não a falar, mas a balbuciar. Foi só quando demos ouvidos ao barulho crescente do século e fomos embranquecidos pela espuma de sua crista que adquirimos uma linguagem". Para mim, isso quer dizer que... Quer dizer de fato que escrever é mostrar a vida. É testemunhar a favor da vida, dos idiotas que estão morrendo. É gaguejar na língua. Fazer literatura apelando para a infância é tornar a Literatura parte de seu caso particular. É fazer literatura barata, são os best-sellers. É realmente uma porcaria. Se não se leva a linguagem até o ponto em que se gagueja - o que não é fácil, pois não basta ga-gaguejar assim -, se não se vai até esse ponto. Na Literatura, de tanto forçar a linguagem até o limite, há um devir animal da própria linguagem e do escritor e também há um devir criança, mas que não é a infância dele. Ele se torna criança, mas não é a infância dele, nem de mais ninguém. É a infância do mundo. (...)


trecho transcrito do vídeo-entrevista O abecedário de Deleuze, 1994
detidos na letra E de enfance (infância)


28.12.10



Há uma quixotesquia em Alÿs que nos desloca de nossos lugares púdicos, como pode? ou melhor ainda por quê? O que parece ser nada é alguma coisa, e, às vezes - isso é muito belo, o paradoxo da práxis - fazer alguma coisa não leva à nada. O absurdo - ficarmos sem chão - já é uma pista do que podemos elaborar a seguir:
criar um novo apoio - re-sustentar
questionar o teto
aprender o vôo
aprender a queda
(...)

*


A arte como espelho da sociedade (blablabla); isso é muito importante, pois é um pêndulo em tempo real, atual, portanto passante. A questão reside em meus olhos que se vêem desincronizados com o movimento desta imagem, tanto quanto minhas mãos que tentam acompanhá-la em mímica.
Como atualizar o movimento real / aparente? Como polir espelho-olhos-mãos?


*

A liberdade é um mito camaleão
que em breve se colore opressão.

A opressão é um fato camaleão
que nunca se colore diamante. 






26.12.10

anexo:


Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina. Tudo lhes é novo e no entanto familiar, aventuroso e no entanto próprio. O mundo é vasto, e no entanto é como a própria casa, pois o fogo que arde na alma é da mesma essência que as estrelas; distinguem-se eles nitidamente, o mundo e o eu, a luz e o fogo, porém jamais se tornarão para sempre alheios um ao outro, pois o fogo é a alma de toda luz e de luz veste-se todo fogo. Todo ato da alma torna-se, pois, significativo e integrado nessa dualidade: perfeito no sentido e perfeito para os sentidos; integrado, porque a alma repousa em si durante a ação; integrado, porque seu ato desprende-se dela e, tornado si mesmo, encontra um centro próprio e traça a seu redor uma circunferência fechada. "Filosofia é na verdade nostalgia", diz Novalis, "o impulso de sentir-se em casa em toda parte". Eis por que a filosofia, tanto como forma de vida quanto como a determinante da forma e a doadora de conteúdo de criação literária, é sempre um sintoma da cisão entre interior e exterior, um índice da diferença essencial entre eu e mundo, da incongruência entre alma e ação. Eis porque os tempos afortunados não têm filosofia, ou, o que dá no mesmo, todos os homens desse tempo são filósofos, depositários do objetivo utópico de toda a filosofia. Pois qual a tarefa da verdadeira filosofia senão esboçar esse mapa arquetípico?
Lukács, A teoria do romance


Algo se esboça. É dificultoso sincronizar duas coisas que na verdade não são separáveis. Uma aporia constante. Língua bestial que se apóia no puzzle: separaram o inseparável, resta-nos juntá-lo. E seguindo de mãos dadas até o fim do bosque, encontramos inscrito no solo aquilo que nos perguntávamos no início da caminhada:


E se alguém dissesse, em sonhos, "estou 
dormindo" -- diríamos que "tem toda a razão"?
L. Wittgenstein, Zettel, 396


25.12.10



os dorminhocos / firmamento


O céu é a imagem do caos. O céu é o container da razão. 
Firmamos um pacto de agora em diante: 
esta teoria nos abandonará no mundo, 
onde desviaremos o que existe 
com o que existe.






24.12.10



Talvez o que me interesse não seja tanto a memória, mas o esquecimento; essa espécie ativa de memória negativa. 
Porque algo se transforma perdendo, liberando espaço. Nascer no repouso.


O paradoxo é o que me faz invendável. 
Porque meu interesse no movimento nasce da minha imobilidade. 
Eu quero esquecer algo de que não me lembro.



23.12.10


como é belo este pássaro que nos acompanha.


News from home, 1977, Chantal Akerman



16.12.10



Falo pelas pessoas habituadas a encontrar sabedoria na folha que cai, problemas gigantescos na fumaça que sobe, teorias nas vibrações da luz, pensamento nos mármores, e o mais horrível dos movimentos na imobilidade. Encontro-me no ponto exato em que a ciência toca a loucura e não posso impor barreiras.

trecho de Théorie de la démarche, 1853, Honoré de Balzac



11.12.10

(...) No sonho o pensamento não se distingue do viver e não perde tempo com ele. 
Adere ao viver; adere inteiramente à simplicidade do viver, à flutuação do ser sob os rostos e as imagens do conhecer.

(...) O sonho nunca realiza esse acabado admirável que a percepção atinge durante a vigília e a claridade.


trecho do texto Estudos e fragmentos sobre o sonho, 
em Variedades, de Paul Valéry

9.12.10


Leitura selvagem, como um RAW linguístico,
mar fonético que une e desune.
Tornar legível a incompreensão para ser compreendido,
não falar no abstrato, mas mostrá-lo,
girar no paradoxo subjetivo entre o que é gota e o que é absorvido -
vejo, mas sinto -
e isso não te exclui do jogo,
a menos que você não queira jogar.
Desobrigação dos olhos, preguiça do nexo comum (preguiçoso),
(lembrete: a preguiça de preguiçosos demanda grande desvio de energia)
e no fim, mas ainda assim, um saldo.
Saldo. Saúdo. Beast. Langage. Eu. Você.


Film Socialisme, Jean-Luc Godard, 2010



7.12.10


algo é dito sobre o conhecido, mas nada sobre o desconhecido.
eis o limite.

resta, portanto, des-cobrir as imagens corriqueiras (pois elas nos informam sobre nosso estado).

Mais uma vez, como um clarão - 
não suprimir o limite: transfigurá-lo.